Pedro, participante do BBB 16, expulso por cometer assédio
Pedro, participante do BBB 16, expulso por cometer assédio

Fui assediada e meu namorado me culpou


Eu tinha uns 16 ou 17 anos. Estávamos na área da piscina do prédio de um amigo no fim da tarde. Bebíamos cerveja. Entrei no banheiro para fazer xixi, e um amigo me seguiu, encurralando-me na parede e tentando me beijar à força. Ele também era amigo do meu namorado.

Naquela época, costumávamos normalizar atitudes como essa. Era obrigação das meninas não darem mole. Não se colocar em situação de vulnerabilidade. Ao contar ao meu então namorado o que havia acontecido e dizer que aquele cara não era legal, ele me culpou por estar bebendo.

E sabe o que é pior? Anos depois, os dois dividiram apartamento e, muito provavelmente, praticaram violências do tipo na brodagem. Esse mesmo ex-namorado também me agrediu quando eu ainda nem tinha 18 anos. 

Começamos a nos beijar (e algo a mais) em um local meio público, como fazem os adolescentes cheios de hormônios nas áreas comuns dos prédios. Mas eu me senti desconfortável e não quis continuar. Ele me manipulou. Disse: " você não pode atiçar um homem e depois parar".

Não me lembro se continuei. Só me lembro de ter sentido um desconforto extremo. Demorei para entender que não era só desconforto. Ali também fui vítima de violência. Falas como essa eram comuns. Elas não pareciam absurdas. Embora houvesse carinho, afeto, amor, havia (e ainda há) muita violência.

As mudanças não têm sido significativas no comportamento dos homens. Vimos em rede nacional que eles ainda estão distantes e no lugar da manipulação. O que tem mudado é a consciência das mulheres. Precisamos, cada vez mais, ajudar aquelas que não compreenderam. Hoje, consigo identificar mais facilmente qualquer estratégia de manipulação e cuspo na cara.

Lembrei de um domingo da edição BBB em que Ana Paula estreou no programa. Ela acusou o pedófilo preso Laerte de pedofilia, e muitos participantes a consideraram exagerada. Na ocasião, eu estava com um rapaz que se incomodou. Ela não poderia atacar a honra de um homem daquela forma. Tentei explicar, mas ele não entendeu. 

Hoje, 10 anos depois (acabei de lembrar da trend “2016 é o futuro”), talvez alguns poucos tenham mudado. Porém, como todo avanço - e aqui falo especificamente do avanço das mulheres - provoca uma força contrária, vemos a explosão de movimentos masculinistas e redpills normalizando e incentivando assédios, violências e a objetificação das mulheres. E a extrema direita tem incentivado esses movimento em todo o globo. Combatê-lo é responsabilidade de todos, inclusive de quem é de direita.

Não acho que todos devam ter um pensamento político de esquerda. Em essência, no sentido mais puro, ambas as ideologias têm serventia. Operamos pelas polaridades (yin, yang, masculino, feminino, direita, esquerda), e o caminho, penso, é a integração. As mulheres precisam, cada vez mais, se unir para combater esse tão antigo e tradicional processo de nossa desumanização. Todas temos inúmeras histórias semelhantes à de ontem no BBB. E isso precisa acabar.

1 Comente

  • Ronaldo Egito
    • Ronaldo Egito
    • 20 de janeiro de 2026 08:54

    É muito importante ler e ouvir que isso não é legal, principalmente, que é crime.
    Gratidão por se dispor a dizer o necessário.

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