Existe mesmo um lugar de vitimismo?
Existe mesmo um lugar de vitimismo?

Existe mesmo um lugar de vitimismo?

Semana passada, assisti Michael, primeira parte da cinebiografia de Michael Jackson, e fiquei extremamente encantada pela figura desse grande artista. Apesar de todas as dificuldades que aquele menino encontrou na vida, tendo, como ele mesmo disse, a infância roubada, ele nunca aceitou o lugar do vitimismo, embora tenha, sim, sido vítima de muitos tipos de abuso.

Sendo uma pessoa que ama estudar espiritualidade e faz terapia há muitos anos, hoje eu tenho plena convicção de que permanecer no lugar de vítima é extremamente prejudicial. E, quando digo isso, falo de um lugar de expansão de consciência, não para te culpar por nada. Porque a verdade é que, sim, nós somos vítimas de muitas questões. Sofremos diversos tipos de opressão. Porém, somos nós que escolhemos a forma como lidamos com a dor.

Aprender isso é uma habilidade que permite uma melhora de vida. Você deve conhecer, por exemplo, alguém que está sempre no lugar de vítima, reclamando, sem vislumbrar solução, e sabe o quanto essa pessoa pode se tornar desagradável de estar perto. Muitas não têm consciência disso e nem conseguem ter. Não julgo ninguém. A proposta é fazermos, mais uma vez, um exercício de autojulgamento.

Após o filme, comentei com João, meu marido, que também é um homem negro, o quanto achei potente perceber que nada foi capaz de paralisar Michael: nem a pobreza, nem o racismo, nem o pai abusivo. Talvez o pai abusivo tenha sido um dos seus grandes motores.

Michael, com toda a sua sabedoria e genialidade, estava o tempo todo trabalhando a si mesmo, dizendo para si mesmo o quanto era forte, criativo, inteligente, o melhor do mundo. Isso é um trabalho de reprogramação que todos podemos fazer.

Com isso, também não podemos dizer que ele não sucumbiu aos horrores do mundo. A morte trágica de Michael Jackson mostra que, embora ele tenha sido extremamente resiliente, houve um momento em que talvez tenha deixado de ser. Nem quero entrar muito nisso, mas crescer com essa superexposição, ser uma pessoa sob os holofotes e receber todo tipo de ódio o vitimou.

Perceba que existem dois lugares diferentes. Um em que somos, sim, vítimas. Somos afetadas por muitas questões externas, fora do nosso controle e da nossa possibilidade de escolha. Quanto a isso, nos cabe pensar: há algo que eu possa fazer por mim para resolver o problema? Se sim, faça. Busque ajuda para fazer. Se é algo mais coletivo e você sente desejo de contribuir, faça algo pensando não em resultados imediatos, mas como parte de um processo para ajudar quem ainda não tem consciência a despertar.

Há uma parte de nós que talvez precise aceitar que, neste plano, nesta forma de vida que temos, nem tudo será justo como julgamos que deveria ser. Estou nesse processo. Nem tudo será reparado de forma imediata. Há lutas cujos resultados só nossas descendentes irão ver. Por isso mesmo, devemos continuar. E, no que for possível, proteger a nós mesmas.

Tendo isso em perspectiva, o outro lugar fala da nossa escolha. Qual parte da realidade escolhemos olhar com mais foco? Com quais óculos, por exemplo, você escolhe enxergar a vida que tem agora? Como você escolhe viver? Se você tem poder de escolha — e sim, você tem —, sua dor será o seu maior guia ou a sua maior prisão? Vendo o filme, essa foi uma das grandes lições que Michael me deixou.

 

✔️ Produto adicionado com sucesso.