Não acho que podemos classificar formas de opressão. Porém, um fato nas leis do Brasil revela o abismo de como as mulheres são desprotegidas em relação ao preconceito e ao ódio: o racismo foi criminalizado em 1989, a homofobia em 2019 e o ódio contra as mulheres ainda não. Só na semana passada, o projeto de criminalização foi aprovado no Senado. E já vimos uma enxurrada de fake news e iniciativas vindas da extrema direita para barrá-lo na Câmara dos Deputados.
Lembrei de um episódio que aconteceu anos atrás com o jornalista, no qual ele diminuiu o peso das agressões que Nego do Borel cometeu contra sua ex-namorada Duda Reis, sob a alegação de ele ser um homem negro. Eu e várias mulheres fizemos várias críticas pertinentes. Além de não compreender a origem das nossas críticas e rebatê-las de forma preconceituosa, ele nos bloqueou e interrompeu qualquer possibilidade de debate.
Também não concordo quando vários pesquisadores do movimento negro dizem que a violência contra as mulheres, quando cometida por homens negros, é um espelho do ideal do homem branco colonizador. Isso não é verdade. A violência e o ódio contra a mulher são muito mais antigos e muito mais enraizados.
A violência contra as mulheres existe em maior ou menor grau em todas as culturas e de forma ancestral. Em Sejamos todas feministas, Chimamanda Ngozie Adichie ressalta as críticas que recebeu por se entender como feminista e por o feminismo não ser africano, como se a violência contra as mulheres não fosse universal.
E não falo isso para diminuir o peso da opressão do racismo, da homofobia ou da transfobia. Digo isso para entendermos o peso da violência que as mulheres vêm enfrentando há milênios e em todos os lugares do planeta. Lendo a Bíblia, temos vários registros. Antes da colonização, antes da Idade Moderna e do poder econômico do continente europeu, o domínio e a servidão das mulheres existiam.
Nascer biologicamente mulher é diferente. Apontar isso não é transfobia. Quando mulheres falam sobre, como Chimamanda, Djamila Ribeiro, Valeska Zanello, entre outras, e tentam silenciá-las, não passa de misoginia. O ódio direcionado às mulheres biológicas, vem de lugares diferentes daqueles direcionado às mulheres trans. Mulheres trans, por vezes, reproduzem misoginia, como quando dizem que são as melhores escolhas por não terem útero e não correrem o risco de engravidar.
O lugar de domínio dos seres nascidos biologicamente como homens, na minha visão, revela-se também, em alguns graus, no processo de transgeneridade. Perceba: mulheres trans chegam bem antes, em alguns lugares, do que os homens trans, seres nascidos biologicamente como mulheres e socializados como mulheres. E esse fato não significa que mulheres trans não sofram horrores de todos os tipos.
Você imagina, por exemplo, a capa de uma revista masculina trazendo um homem trans como homem do ano, como aconteceu com Erika Hilton na revista Marie Claire? E não, não tenho críticas à posição que ela assumiu na presidência da Comissão das Mulheres; penso que ela fará um excelente trabalho. Reconhecer tais questões, porém, é só uma maneira de localizar os diferentes problemas, seus diferentes pesos e suas origens. E tratá-los com mais eficiência.
Por mais que estejamos todos os dias sofrendo violências de todos os tipos, exploradas e sobrecarregadas, é inegável como o movimento das mulheres tem progredido e trazido mais consciência para os problemas que enfrentamos. O marco legal da criminalização da misoginia será muito importante. Que estejamos juntas nessa luta e preparadas para enfrentar todas as violências e fake news que virão desse processo.


















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Lembra da primeira vez que você se tocou?
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