Não sei quem nasceu antes, o algoritmo que engaja através do ódio ou o ódio que vibra com muita intensidade dentro da gente. Eu também o sinto. O fato é: as redes sociais têm nos tornado pessoas muito mais habituadas, acostumadas a odiar. E as consequências disso são terríveis. Não sei se é exagero dizer: o ódio e a polarização vinda do ódio têm sido um dos aspectos centrais da cultura do nosso tempo.
O grande problema é que o ódio tem nos desviado da solução. Tanto para nós, individualmente, quanto coletivamente. Por exemplo, nós, mulheres conscientes da misoginia e do machismo, muitas vezes podemos nos conectar com a parte mais sofrida da nossa realidade, com o ódio aos homens, e paralisar. Achando, também, que não alcançamos certos lugares por ter nascido mulheres, por sermos pretas, de baixa renda, LGBT, entre outras realidades oprimidas.
Fantasiamos que, se algo fosse diferente, nossos resultados seriam diferentes. E sim, é inegável que acessos e privilégios encurtam caminhos. Mas sou do time de Anitta. Acredito que podemos ter, criar e ser o que sentirmos vontade. Não estou dizendo que será fácil ou mágico. Estou dizendo que nada é impossível.
Podemos cocriar, com as limitações desse plano, tudo o que queremos. Podemos, inclusive, criar caminhos concretos para enfrentar o ódio que nós próprias sofremos. Para isso, entendo ser necessário nos afastar um pouco do sofrimento, do ódio ao outro, das polarizações, das crenças absolutas, como aquelas que dizem que um problema específico não tem jeito. Pode não ser rápido, mas tudo tem jeito.
Por exemplo, eu não tenho ódio de quem faz muito dinheiro e também não acho que quem não faz dinheiro fracassou ou merece ser explorado. E também não estou falando de extremos. Estou falando de amplitude de olhar. Já senti muito ódio de homens e hoje os enxergo como produto do meio. Moldados com inabilidades e violências. Não seres odiosos em essência. Há um trabalho de reversão que não pode deixar de ser feito.
Temos, todos, uma porção oprimida e opressora. Quando não operamos com senso crítico - quando não olhamos para nosso ego - fica difícil enxergar nosso lado odioso. O ódio que nos habita e nos torna cegos. Assim, operamos na agressão, no que julgamos ser vingança, no cancelamento. E não olhamos para nós mesmos, nem coletivamente, buscando soluções.
Como sou do planejamento, do atacar e resolver, por mais que, por vezes, fique ali abraçada com meu vitimismo, fracasso e ódio, logo, logo estou obcecada pela solução, pela reinvenção. Sou otimista em muitos aspectos, acredito que tudo que temos de ruim pode ser reestruturado, melhorado, desenvolvido.
O que me incomoda é não vislumbrar soluções coletivas para problemas concretos porque, ao invés de buscá-las, estamos nos distraindo. Culpando quem não deveríamos culpar, reproduzindo, sem autocrítica, padrões tão antigos. Escrevo e crio as coisas que eu crio, inclusive, por conta desse desejo de buscar, curar, transcender não só a mim, mas também de ajudar com caminhos coletivos.
Não podemos nos identificar tanto com o sofrimento a ponto de não sermos capazes de agir. Às vezes, o não agir pode ser uma forma de evitar a coragem e os desabores de fazer, seguir. Não se distraia diante de tantos sofrimentos reais e de tanto ódio. Estamos em ano de eleição e seremos bombardeadas. Por mais que a busca constante por evolução e solução exija certa fé, eu acredito: há sempre caminhos. Mudanças individuais constroem, aos poucos, mudanças coletivas.

















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