Assisti, esse fim de semana, ao filme Valor Sentimental, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro e acabou tirando a chance de o Agente Secreto levar essa estatueta. Lembrei da minha infância, das minhas rachaduras, da casa em que cresci, lembrei de uma viagem que fiz, quando estudante de arquitetura, a Berlim e vi aquela cidade permeada por traumas tão profundos.
Somos todos histórias. Não aquela história dada em sala de aula em que, por vezes, os fatos são distorcidos pelo ponto de vista do dominador. Somos as histórias do que nos corta. Aqui, de um país invadido, colonizado, onde os povos originários foram quase dizimados e povos de diferentes origens se misturam, mas com histórias de dor diferentes, de violências bem distintas.
Sou a primeira filha de pais adolescentes. Morei até os 27 anos na casa da minha avó materna. Meu pai morreu quando eu tinha oito anos, minha bisavó, que também morava conosco, quando eu tinha nove. Há poucos anos, antes de essa casa ser vendida, eu não quis mais ir lá. Hoje, quando passo por perto, evito até olhar para ela. E não é por tristeza ou por saudade. É porque ela segue viva nas minhas memórias. E não quero deturpar.
Não olho para a casa, talvez, porque sinto uma vontade terrível de futuro. E talvez por não querer encontrar minha criança. E nem deve ser a criança em si, e sim os traumas construídos lá. Este ano faço 40 e sigo tentando aprender a ser adulta. De alguma forma, não importa a idade, estaremos sempre aprendendo a ser adultas porque seguimos ao lado de nossa criança e ligadas às dores dela, por mais terapias e processos terapêuticos que a gente faça. O filme mostra isso de uma forma muito sensível.
Lembro de insistir para minha avó fazer terapia há alguns anos. E foi terrível, ela não conseguiu continuar. Estando se aproximando dos 80 anos, revisar sua vida, encontrar sua criança, não foi suportável. Um dia ela me disse: eu não queria ter vivido a vida que vivi. Esse sentimento deve ser um tanto comum às mulheres da sua idade.
Há contornos de desgosto no passado. Há um encontro com quem mais nos feriu e com quem mantemos laços mais apertados, nossos cuidadores primários. Há, nisso tudo, a história dos espaços em que vivemos. Dos acontecimentos, das tragédias, dos contextos.
Nasci na época da mega-inflação e o medo era faltar leite. Nina, minha sobrinha, nasceu no auge da pandemia. O trauma da pandemia ainda segue. E talvez também o de vidas passadas. Faço processos terapêuticos para encontrar até as rupturas de vidas passadas. Engravidei de Antônio no fim de semana seguinte a ter visualizado que, numa vida passada, fui morta por falar coisas que não devia. Deixei um bebê de pouco mais de um ano. Se isso é verdade, imagina o quanto minha alma é cortada.
Não sei se somos capazes de curar traumas, de remendar perfeitamente nossas rachaduras. Nem essas das vidas passadas. E, por vezes, é melhor mesmo não olhar para elas, assim temos mais força para seguir. Porém, sem consciência dos buracos, repetimos, nos enfiamos nas mesmas questões, questões até geracionais, dos nossos pais, avós e bisavós. E também abafamos nossa potência, não evoluímos. Fazemos mal aos nossos filhos (essa é a pior parte). Ficamos para sempre na mesma casa.
Se curar traumas por completo é impossível, penso ser necessário buscar formas de transcender. Como no filme, a arte é um lindo caminho. Olhar para a dor, entender como ela nos deforma, construir consciência, mas sem nos identificar profundamente com ela, como diz Gabor Maté, talvez nos ajude a voltar a ser um pouco da essência das nossas crianças, sem as deformações vindas de ciclos repetidos de dor, das rachaduras que, se não cuidadas, afundam nossa casa.


















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2 comentários
Tenho 67 e penso exatamente assim.Se pudesse voltar…
É tudo verdade, me sinto assim. Obrigada
Homem só serve se for para trazer paz?
Lembra da primeira vez que você se tocou?