Quando fiz mestrado e doutorado, me dediquei muito a estudar os aspectos da revolução tecnológica e da comunicação que estamos atravessando desde o surgimento da internet e, principalmente, a partir do momento em que computadores e smartphones foram se tornando mais acessíveis.
Obviamente, dentro dessa revolução, podemos ler novas fases: o surgimento e a popularização das redes sociais e, agora, da inteligência artificial. E, diante de cada uma dessas mudanças, nossa forma de viver em sociedade, e também de pensar e agir, vai se transformando. Isso porque as narrativas centrais também vão se transformando.
Para quem trabalha com redes sociais, ou tem um trabalho vinculado a elas, como eu, tudo depende do que chamamos de economia da atenção. Hoje, trago, mais uma vez, a figura de Virgínia, não para defendê-la, mas para pensarmos sobre a forma como nós e quem está ao nosso redor estamos construindo pensamento crítico. E sobre como, muitas vezes, criticamos Virgínia enquanto usamos as mesmas lógicas.
Na semana passada, mais uma vez, Virgínia foi uma das pessoas mais faladas do Brasil por causa do episódio do macaco em Dubai. E, antes de julgar se ela fez aquilo intencionalmente ou não, eu quero fazer outra pergunta: se a intenção era manipular a atenção para si, o que foi que ela conseguiu?
E o que todas as pessoas e canais que falaram do mesmo assunto fizeram de tão diferente de Virgínia ao conseguirem atenção para si? Eu sei que existe diferença entre quem pontua criticamente algo ou alguém e quem simplesmente cria polêmica, mas eu estou falando da lógica de um mesmo sistema. E também do desejo do ego de estar certo, de definir o outro como errado e de aproveitar o mesmo palco para receber atenção e paixão.
Entre paixões e opiniões cada vez mais polarizadas, o que nós, como sociedade, estamos construindo de fato? Estamos achados ou perdidos diante de tantas fofocas, ódio e polêmicas? É isso que venho me perguntando e perguntando a quem me lê quando falo criticamente desse problema.
E agora eu quero trazer algo ainda mais polêmico para esse debate: a fala de Luciano Huck sobre o Bolsa Família. E dizer que eu não discordo dele. Assim como aconteceu na polêmica de Virgínia, percebo o mesmo movimento: diversos perfis surgem alimentando essa mesma engrenagem, polarizando mais e mais, sem autocrítica.
Se nós, como sociedade, tivéssemos consciência de que polêmicas como a do macaco só geram ainda mais buzz e pouco agregam, poderíamos não nos afetar. Poderíamos ignorar. Mas, no fim, estamos dentro do mesmo sistema. Consegue perceber que a extrema direita só chegou onde chegou, em várias partes do mundo, por causa dessa mesma lógica? Quando vamos parar de alimentar as mesmas lógicas de ódio e passar a consumir e engajar muito mais com o que agrega?
E, sobre a fala de Luciano Huck, se a gente não estivesse tão polarizado, talvez conseguisse pensar e debater: sim, o Bolsa Família é um dos programas mais importantes do mundo. E, sim, é muito grave que o Brasil venha, há décadas, sem criar estratégias sólidas para que nossa população saia da miséria por meio do desenvolvimento da nação. Concluir isso não te faz de direita, de esquerda, crítico ao Bolsa Família ou adorador de Luciano Huck. Só exige pensamento crítico.

















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