Devemos educar os homens com quem nos relacionamos?
Devemos educar os homens com quem nos relacionamos?

Devemos educar os homens com quem nos relacionamos?

Tenho pensado sobre essa questão exaustivamente. Passei uns 10 anos só, vivendo relacionamentos sem tanto compromisso. Há uns três anos, porém, conheci João, e já fomos morar juntos e, em menos de um ano, engravidei de Antônio. Hoje, vivendo essa aventura, divido a cama com dois homens.

Não queria ter que educar os homens. Pelo menos, os que não são meus filhos. Mas, sendo uma mulher mais consciente de tudo o que os homens aprenderam sobre como devem exercer o papel masculino na sociedade, tem sido impossível me manter inerte. E, pelo menos, eventualmente, não "dar uns gritos". Na minha casa, pelo menos, posso ser maluca em paz.

Não quero, por exemplo, que Antônio aprenda um monte de coisa que João aprendeu. E sei que João já aprendeu muitos valores importantes, como caráter e respeito. O mínimo, mas que já o faz ser diferente. Sei que estou casada com um homem de qualidades e também de limitações.

Vivemos numa era de transição dos papéis estabelecidos para homens e mulheres. Não é que os papéis sociais preestabelecidos estão perdendo a função como alguns sociólogos apontam. Afinal, qual função era essa? Designar aos homens o poder e às mulheres a subalternidade? Esses papéis estão caindo porque estamos conquistando poder, liberdade e igualdade. Não mais nos submetendo. A crise atual da masculinidade vem justamente dessa reorganização das relações entre homens e mulheres.

Há cerca de um século estamos indo para o mercado de trabalho para termos dinheiro e, consequentemente, mais independência, igualdade e poder. Na minha linhagem, as primeiras ancestrais a trabalhar fora de casa foram minhas avós. As duas também foram às faculdades: uma é psicóloga e outra advogada. Minha mãe fez duas faculdades: administração de empresas e engenharia civil. Eu fiz arquitetura e urbanismo, mestrado e doutorado em urbanismo, estudei cinema e sigo estudando um monte de coisa.

Na família de João foi diferente. Suas avós e sua mãe ficaram restritas ao ambiente doméstico. E mesmo que nossas experiências fossem mais semelhantes, não sei se esse problema estaria resolvido. Precisamos de tempo para transformar a cultura machista estabelecida por milênios, que designa às mulheres o papel do cuidado e da administração do lar. Não gostaria de ter a carga mental de clamar pela divisão de tarefas. É desgastante precisar ensinar o óbvio. Destruidor de tesão. Ficar calada não é uma opção.

No fim, mesmo sem querer, me coloco a serviço da educação. Às vezes, ela é mais pedagógica. Às vezes, acabo caindo no controle e, consequentemente, no ódio e na exaustão. Em vez de ensinar, coloco limites, faço ameaças. No fim, colocar limites, ir ou ficar a depender da ação do outro, não continua sendo educar? Não que eu também não esteja me educando, entendendo meus limites, o que devo segurar e o que devo soltar. Às vezes, somos dois adultos em diálogo, às vezes sou mãe, noutras disputamos poder.

Não acho que devemos simplesmente abandonar as relações porque ambos, de alguma forma, estamos aprendendo. Caminhando de extremos, mesmo que devagar, para o centro. Curando traumas coletivos muito próprios de ser homem e ser mulher. Acho interessante quando Gabor Maté traz essa perspectiva de revisitar e curar os traumas através do encontro nos relacionamentos. Mas, claro, cada escolha individual — se relacionar ou não, ter filhos ou não, entre todas as outras — deve ser respeitada.

Até que os papéis de gênero deixem de determinar o lugar de homens e mulheres e consigamos construir relações mais igualitárias, muitos conflitos ainda vão existir nos relacionamentos. Impossível não tê-los. E quem chegou na frente vai ter que ensinar quem está atrás. O que precisamos é que os homens avancem mais rápido e também se coloquem no papel de educadores não só de seus filhos, como dos seus pares. Principalmente para que esse papel de educar, mais uma vez, não recaia apenas sobre nós, mulheres.