Por que mulheres demoram para ter o primeiro dispositivo de prazer?
Por que mulheres demoram para ter o primeiro dispositivo de prazer?

Por que mulheres demoram para ter o primeiro dispositivo de prazer?

Comprei meu primeiro dispositivo de prazer em 2018. Esses dias, até visualizei a data no histórico de compra em um aplicativo. Fiquei impressionada com o quanto, em menos de 10 anos, minha vida mudou por conta dessa pequena escolha.

Foi um dispositivo 2 em 1: tinha uma parte penetrável e o chamado sugador — que hoje prefiro chamar de sistema de pulsação de ar. Como muitas pessoas que compram os Perfeitos, me assustei ao descobrir que os sugadores não sugam de verdade. Porém, as sensações foram as mais incríveis.

A parte penetrável, para mim, nem foi tão interessante. Tanto é que nem usei muito. O nosso poder reside no clitóris. Os chamados sugadores ou, como prefiro, os dispositivos de pulsação de ar são tão revolucionários justamente por deslocarem o prazer da penetração e focarem no clitóris.

Não é exagero dizer: eles mudaram minha vida porque transformaram toda a minha relação com a sexualidade. Hoje espalho essa palavra porque quero que a autonomia que descobri chegue a muitas e muitas mulheres. Entender nossa potência para além da presença do outro nos traz poder e liberdade, não tenho dúvidas.

Ao ver esse histórico de compra, também fiquei me perguntando por que demorei tanto. E por que nós, mulheres, ainda temos tantos tabus em relação a comprá-los e também à masturbação? Por aí, quais são as questões que te atrasaram?

Eu consigo mapear muitas. Nosso prazer é constantemente demonizado, colocado como algo pecaminoso, errado, coisa de mulher sem valor. E o pior: colocado a serviço do outro, para satisfazer o outro. Vivendo em meio a essa cultura, não é de se espantar termos tantas dificuldades e tabus quando falamos de prazer feminino.

Por tudo isso, muitas de nós só fazem essa escolha de ter o primeiro dispositivo de prazer de forma tardia. Eu só tive “coragem” de comprar quando fui morar só, por exemplo. Hoje — vamos celebrar — vejo um movimento lindo: muitas mães presenteando suas filhas, falando sobre a importância da autonomia. Mas ainda não é tão comum.

Minha missão é essa: naturalizar esses assuntos, mostrar o quão saudável e empoderador é fazer uso de dispositivos como os Perfeitos. Precisamos dessa mudança de paradigma. Muitas mulheres ainda vivem relações de submissão, não sabem aproveitar o bem-estar que nosso próprio corpo permite. E isso aprofunda nosso lugar de dependência.

Por aqui, já somos uma comunidade de 80 mil mulheres. E esse número ainda é pequeno. Muitas ainda não tiveram coragem de dar esse primeiro passo, de estabelecer com sua sexualidade uma relação mais íntima. Sentem medo. Do outro lado da ponte, posso garantir: há muitos ganhos a se alcançar com essa pequena escolha.