Não sei se você viu a notícia, mas o policial rodoviário federal Breno Vieira Faria, responsável pelo perfil Café com Teu Pai, que há tempos constrói discursos de ódio contra as mulheres, reforçando julgamentos e um lugar de servidão e opressão, foi denunciado ao Ministério Público Federal por misoginia. Não sabemos aonde isso vai dar. Mas já é um avanço.
Nas últimas semanas, o masculinista Gabriel Breier, conhecido por participar do programa “Machista vs 30 Feministas”, acabou sendo banido do Instagram e do TikTok, depois de acumular discursos de ódio e falas absurdas, como a de que tirou a própria mulher da faculdade de Odontologia um ano antes de ela se formar, porque mulher bonita não precisa trabalhar. Vemos aí mais um avanço.
Tenho feito uma pesquisa sobre esses discursos de ódio que vêm se tornando comuns na internet. Há outro masculinista, Raiam Santos, conhecido por espalhar absurdos, como o de que mulheres com tatuagem de borboleta seriam problemáticas e teriam tido pais ausentes. Esse é o nível de loucura.
Essa narrativa, obviamente, não tem qualquer base científica nem qualquer fundamento na realidade. É apenas uma construção sem sentido, mas que produz efeitos porque muitos veem nela a verdade. Inclusive, se percebemos a borboleta como símbolo de transmutação e liberdade, até dá para entender por que ela incomoda certos tipos de homem.
Yuval Noah Harari, historiador, mostra no livro Sapiens uma ideia muito importante sobre a nossa evolução como seres sociais. Segundo ele, ao criar narrativas e acreditar nelas, nós nos tornamos capazes de agir coletivamente em função delas, seja para propósitos considerados mais dignos, como cuidar uns dos outros, seja para destruir outras espécies, a nossa própria, criar guerras, massacres e violências em geral com base nelas.
O poder das narrativas reside justamente na nossa capacidade de criar crenças, criar mitos e acreditar neles, mesmo quando não existe base real para sustentá-los. Lembra das mulheres chamadas de bruxas e queimadas na Idade Média em nome de uma suposta purificação da humanidade? A quem esse mito serviu?
Pensa no perigo dessas narrativas sem sentido, criadas por esses grupos masculinistas e divulgadas em massa pelas redes sociais. Nem precisamos pensar muito: já estamos vendo, na prática, histórias terríveis de estupros coletivos praticados por adolescentes misóginos e adoradores de Redpill. Vimos recentemente um feminicídio cometido porque a mulher não estava sendo, na lógica deles, uma mulher beta, submissa ao domínio de um macho alfa.
Se as narrativas podem ser criadas para o mal, também podemos criar novas construções para o bem das mulheres e da humanidade.
Tenho esperança, o Brasil pode ser vanguarda nesse processo, construindo o arcabouço legal capaz de combater e punir esses discursos de ódio, servindo de exemplo para outros países. É o que precisamos construir coletivamente. Não dá para continuar do jeito que está.


















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