Trinta contra uma de Graça Craidy
Trinta contra uma de Graça Craidy

Estão nos matando mais?

Outro dia, fiz o seguinte questionamento: será que houve um aumento no número de violências contra a mulher? As notícias estão mais frequentes, temos debatido mais sobre esse problema. Li uma reportagem recente do G1, com o seguinte título: Brasil registra recorde de feminicídios em 2025; quatro mulheres são assassinadas por dia.

Os números podem ser ainda maiores, já que não são todos os Estados que computam corretamente os dados de feminicídio. Só foi a partir de 2015 que começou a ser usada essa tipificação, o que também acaba dificultando a visão correta dos dados.

Não dá para ter certeza se estão nos matando mais ou se só estamos registrando mais. Mas tenho a sensação de que sim, estamos morrendo mais, sendo mais violentadas. E o aumento da violência é fruto do nosso avanço e de uma força bruta contrária dos homens para nos conter. Boa parte dos homens não aceita que ocupemos o lugar de sujeitos. Eles nos querem no lugar de servir, de objetos. Também tem outra questão: com o nosso avanço, estamos tirando lugares que historicamente eram só deles. Por isso, a inveja.

Como fruto desse processo, vemos em todo o globo o avanço de grupos masculinistas que expressam fortemente esse ressentimento, ensinando homens a serem dominantes e violentos. Me diz: há quanto tempo você tem ouvido falar de homens alfa e homens beta? As redes sociais têm sido um espaço propício para esse tipo de desinformação. Enquanto os conteúdos produzidos por mulheres, como os meus, não têm tanto alcance nem engajamento. E não é por falta de qualidade.

Sinto que buscamos respostas simples para problemas complexos. Às vezes, uma solução simplista parte de uma nostalgia sem sentido, de voltarmos aos paradigmas do passado. Não por acaso, essa explosão de conteúdos sobre esposas troféu, resgate de energia feminina e balelas do tipo. Como sociedade, não fomos educados para ter pensamento crítico, para entender de forma mais ampla um problema. Temos, cada vez mais, lido menos, estudado menos. E tudo isso é extremamente preocupante.

Através das redes sociais, temos entrado em contato com ideologias de todos os tipos. Algumas até pregam que a violência contra as mulheres é uma invenção feminista, e não um fato histórico, ancestral, documentado em maior ou menor grau em todas as culturas do planeta. Antes de existir o feminismo, já havia bruxas sendo queimadas nas fogueiras.

Embora as violências persistam, nosso avanço é inegável. E desejo profundamente que avancemos muito mais. Porém, faltam mais políticas públicas, mais educação de base. Sou entusiasta de encararmos o machismo como uma patologia social. Não para protegermos os homens das consequências dos seus atos, mas para buscarmos, como sociedade, resolver um problema estrutural da nossa socialização: a ideia de que homens são sujeitos e mulheres, objetos.

Toda a sociedade se mobilizou recentemente pela morte do cão Orelha, e essa revolta é legítima. Essa violência vem do mesmo lugar. Não sei se estamos mais habituados a isso, mas não houve a mesma comoção quando a menina Alícia Valentina foi espancada também por adolescentes e morreu em decorrência, no interior de Pernambuco. Estamos vendo a violência masculina escalar e pouco estamos fazendo. A pergunta que fica é: quando vamos resolver esse problema?

 

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