Quem não entende de liberdade, pode parecer contraditório que tantas mulheres desfilem seus corpos no Carnaval e, ao mesmo tempo, lutem contra o assédio. Parte das feministas também acreditam que deixar o corpo à mostra é servir ao patriarcado.
O mais curioso é que, para os homens, nada disso é questionado. Se eles exibem o corpo, seus peitorais, suas pernas, usam sungas, nada é questionado. Quando são assediados é muito mais por homens. Já vi isso de perto em alguns Carnavais. Sabemos muito bem qual é o problema.
Quando exibo minha bunda, não estou necessariamente objetificando meu corpo. Não faço porque me sinto pressionada a fazer. Uso hot pants, maiôs, decotes porque quero, porque sou sujeito das minhas escolhas. Mostro minha bunda porque acho bonito. Porque é muito mais confortável usar pouca roupa no Carnaval.
A moda de usar roupas pequenas no Carnaval é antiga. Basta olhar as escolas de samba. Nas ladeiras de Olinda, isso começou a se popularizar há mais de uma década. A primeira vez que usei uma hot pants foi em 2016 e virou motivo de briga com um amigo. Eu poderia lhe dar mais “trabalho” na rua. Achava contraditório o “não é não” com um corpo à mostra. Lhe parecia que poderiam interpretar como um convite ao assédio.
Lembro do dia amanhecendo, na madrugada de sábado para domingo, no desfile do Cariri, na parada em homenagem a Dona Dá - fazedora do Carnaval e patrimônio vivo de Pernambuco - um homem me olhando dos pés à cabeça. Imediatamente, de forma rude, perguntei o que ele estava olhando. Ele virou e saiu.
Nesses dez anos mostrando a bunda no Carnaval, posso dizer: as coisas melhoraram. Me sinto mais respeitada. Ainda está longe de ser perfeito. Mas, por exemplo, já não temo sair sem companhia nas ladeiras de Olinda. Antes, independentemente da roupa, andar só, existir, era um convite ao assédio.
Mostro a bunda no Carnaval também porque sinto poder nesse lugar, não nego. E não é um poder de sedução, e sim um poder de me sentir mais autônoma nas minhas escolhas. De dizer, em subtexto: não controlam minhas roupas. Faço o que quero. Pelo menos nas roupas que visto.
Nesta última década, tenho achado o Carnaval muito mais bonito. Bundas à mostra são muito mais exuberantes do que cobertas por shorts jeans. As roupas, as não roupas, os adereços, os brilhos têm trazido às ruas mais beleza. Os homens também estão se vestindo um pouco melhor. Em Olinda, seguindo as cores dos blocos, cria-se um espetáculo lindo de se ver.
Não podemos esquecer: moda também é movimento de transformação, também é política. Bundas à mostra também são ferramentas de luta contra o assédio. E não há nada de contraditório nisso.


















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