Como a maior parte das mulheres da minha geração, cresci vendo novelas da Globo, em que as vilãs, em quase, sei lá, 90% dos casos, eram mulheres. E, em quase todas as situações conflituosas, bastante shakespearianas, diga-se de passagem, havia uma disputa feminina por um homem ou por um lugar de poder.
Se formamos o nosso inconsciente muito pelo que está nas narrativas que consumimos (mostro isso por meio de conceitos e casos na minha tese de doutorado), esse sistema patriarcal consolidou muito bem na nossa cabeça esse lugar de disputa e ódio por outras mulheres. Não é difícil perceber isso no dia a dia.
Não queria ter que falar mais uma vez de Virginia Fonseca, mas o que ocorreu ontem no Maracanã e a forma como a violência que ela sofreu repercutiu ilustram como nós, inclusive nós, mulheres, estamos imersas na misoginia sem nos darmos conta. E é sobre isso que precisamos pensar.
A polarização, que é muito própria da cultura do nosso tempo e que, como falei na semana passada, vem de uma lógica da revolução tecnológica e do consumo excessivo das redes sociais, em vez de nos unir, de alguma forma pode estar nos distanciando. Distanciando, justamente através do espectro político, mulheres de direita, de esquerda e por aí vai. Isso é uma grande armadilha para a luta das mulheres.
Por isso, é preciso um letramento de gênero muito sensível para que a gente olhe para mulheres que estão do lado oposto às nossas crenças, aos nossos valores, e simplesmente não as odeie. Odiar mulheres é algo que nosso sistema e nossa cultura patriarcal nos ensinam desde muito pequenas.
O encontro de Manu com Cíntia é extremamente poderoso justamente por promover uma união inesperada. Vejo nele um método eficaz a seguirmos na luta contra a misoginia.
Ainda não li o livro que elas escreveram juntas, mas, nos encontros entre ambas que temos visto nas entrevistas e nos podcasts, percebemos: não há um desejo de uniformidade de pensamentos, há simplesmente um lindo processo de aprofundamento da compreensão da violência sofrida por nós, mulheres.
Da minha parte, eu tenho feito um exercício muito profundo de tentar dialogar de uma forma mais convidativa com quem pensa diferente. Este ano é de eleições, então eu acho que a gente vai ter que ser muito estratégica para colocar representantes dentro da Câmara e do Senado que trabalhem em prol das mulheres. E também nas assembleias legislativas e nos governos dos estados.
Inclusive, eu tenho uma ideia que ainda não sei como podemos viabilizar. Já abro ao debate: a gente poderia criar alguns canais de acordo com as cidades, não sei, talvez no Telegram, e pactuar, em grupos organizados por estados, quais são as senadoras, deputadas federais e estaduais em quem vamos votar como grupo. Não seria poderoso?


















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