O peso da sobrecarga mental do cuidado
O peso da sobrecarga mental do cuidado

O peso da sobrecarga mental do cuidado

Esses dias fiquei pensando, será que sou justa com João quando reclamo que ele não divide o trabalho de cuidado comigo? Fisicamente, de algum modo dividimos.

Antônio fará um ano no dia 29 de dezembro. Já temos uma rotina que funciona quase como uma dança. Quem fica com Antônio quando ele acorda na madrugada, quem levanta com ele de manhã, quem dá banho à noite, quem coloca para dormir em cada dia da semana, quem cuida nas manhãs do fim de semana quando não temos ajuda. Sou uma pessoa de hábitos noturnos, não acordo cedo. Então, as manhãs são com João.

O problema não é a não divisão do trabalho físico. Por aqui ela até existe. E sei que muitas mulheres nem isso têm. Porém, até para isso existir na nossa família demandou uma organização do meu lado. Uma definição - que foi minha - de quem deveria fazer cada coisa, a cada momento. E houve momentos em que, para atingirmos essa rotina, eu precisei brigar, o que é extremamente desgastante.

Sabe qual é a minha sensação? Que eu preciso ser a CEO (a chefe executiva) da casa e do meu marido. E sem ganhar por isso. Eu tenho que dar as coordenadas do que ele tem que fazer e tenho que acompanhar se a tarefa foi feita. Só que eu também já sou a CEO da minha empresa. Então, são muitas funções acumuladas. Muita sobrecarga.

E há muitas tarefas que João simplesmente não consegue assumir por mais que eu lhe demande, coisas que envolvem um trabalho de planejamento maior, como fazer compras para casa, para Antônio, marcar pediatra, cirurgião que acompanha o tratamento da fissura labiopalatina, o calendário de vacinas, planejar viagem, aniversário, passeios, pagamento das contas de casa e coisas do tipo.

Outro dia uma amiga me perguntou se João trocava fraldas. E isso me pareceu tão pouco diante das infinitas demandas de se ter um filho. Mas a pergunta até comum revela como não esperamos muito dos homens.

Estou aqui expondo minhas intimidades com o objetivo de retratar um problema comum, que acontece em muitos lares e que tem um efeito perverso para mulheres. Precisamos olhar para o problema. E sei que o mínimo que tenho muitas mulheres sonham em ter porque o trabalho do cuidado recai 100% mesmo sobre elas, recebendo uma pensão ínfima que não cobre nem 50% das despesas da criança.

Quando falamos de violência contra as mulheres esse é um dos pilares importantes. A ideia de que as mulheres estão aqui para servir é justamente o que faz com que os homens não assumam o lugar do cuidado. Muitos como João já evoluíram e assumiram o cuidado físico. Já trocam fraldas lindamente. Porém, ainda há muito a ser dividido. A sobrecarga feminina também é violência.

Falando em libido, tema que interessa aos homens, não tem como nós, mulheres sobrecarregadas, em estafa, sentirmos desejo. Falta espaço. E sim, isso afeta a nossa qualidade de vida e o nosso bem-estar. Mas o pior é sermos cobradas e culpadas - mais uma vez - por não termos vontade de transar. Não abrace mais essa culpa. Devolva para o responsável. Conselho bem lua em Áries.