O sucesso de Cazé e o pacto masculino que ainda não conseguimos produzir
O sucesso de Cazé e o pacto masculino que ainda não conseguimos produzir

O sucesso de Cazé e o pacto masculino que ainda não conseguimos produzir

Lembro de, quando criança, participar da competição da Rainha do Milho nas festas juninas. Minha avó fez meu vestido, como sempre, muito bonito, e ela e minha mãe engajaram a vizinhança para comprar a rifa e me fazer ascender ao maior destaque. Acabei ficando em segundo lugar, no posto de Rainha dos Fogos.

Escutei burburinhos de que a primeira colocada só ganhou porque fazia parte da família das donas da escola. Rei do Milho, dos Fogos ou qualquer outro título não existia para os meninos. Eles nunca precisaram disputar postos sem importância para descobrir o próprio valor. Já nós, mulheres, desde pequenas fomos medindo nosso valor pela beleza, por protagonismos bestas.

Por outro lado, os homens, apesar das disputas de ego, apoiam muito mais uns aos outros, fazendo a carreira uns dos outros acontecer. Outro dia, compartilhei um vídeo da maravilhosa comediante Carol Delgado falando sobre a união dos homens em torno da convocação de Neymar para a Copa do Mundo. Enquanto isso, nós, mulheres, muitas vezes nos engajamos em destruir a carreira umas das outras. Não por acaso, como grupo, os homens seguem avançando.

Você acha possível, nesse planeta, uma mulher, especialmente uma mulher negra, streamer, que se comunica com a massa, fala sobre o universo feminino (até porque já é impossível englobar o universo feminino de forma tão simples quanto se faz com o masculino), obesa e sem nenhum refinamento estético na comunicação, destituir o poder da Rede Globo na transmissão da Copa do Mundo? Pensa sobre isso.

Com isso, não quero dizer que Cazé e seu canal não mereçam ocupar o espaço que ocupam. Inclusive, Cazé só construiu esse espaço por conta da revolução tecnológica na comunicação. Quero apenas trazer algo que me parece indiscutível: ainda é impossível uma mulher ocupar esse mesmo lugar. E, como grupo, é isso que nós, mulheres, precisamos mudar.

Precisamos parar de nos incomodar, ter inveja e disputar com mulheres que ascendem, seja conquistando dinheiro, poder, destaque profissional, magreza, marido, família ou qualquer outro ativo que julguemos de valor. É por aí que começaremos a mudar o jogo. Todas as vezes que formos julgar uma mulher, em vez de simplesmente reproduzir a arquitetura do patriarcado, deveríamos nos perguntar: essa voz é realmente minha? Ou ela vem de outro lugar?

Inclusive, chega de Romários como senadores. Precisamos fazer um pacto coletivo entre mulheres para eleger representantes do povo mais na vibe de Fernanda Gentili. Digo: mulheres que saibam se colocar e exercer seu trabalho com excelência.

Se a arquitetura do patriarcado faz com que homens apoiem e “acobertem” homens, ela também nos coloca em disputas por migalhas. Nos faz culpar umas às outras pelo que não é nossa culpa. Cria uma extrema tolerância com homens, a ponto de perdoar Cazé e a CazéTV pela propaganda de bets, mas não Virgínia. Será que não deveríamos criar, entre nós, mulheres, também uma estrutura tão forte de união e apoio?

De qual mulher, enquanto grupo, estamos fazendo a carreira acontecer? Sobre quais mulheres não estamos tecendo uma infinidade de críticas? Olhando para o corpo? Para o cabelo? Se casou ou se separou? Com quem casou ou de quem se separou? Se escolheu ter filhos ou não? Quais mulheres estamos admirando como empresárias, escritoras, políticas, artistas e comunicadoras?