Esses dias, uma amiga me contou que encaminhou a minha crônica da semana passada para o grupo de mães da escola, porque algumas têm estado em alerta sobre o aumento da misoginia entre os colegas de sala — meninos na faixa dos 11 e 12 anos. Será que estamos olhando para isso com o devido cuidado? Crenças desumanizadoras sobre as mulheres se formam nessa fase da vida. E fica difícil de reverter se não cuidamos logo.
Essa amiga me conta que as crianças têm livre acesso a smartphones e a tudo que as redes podem revelar. Muitas, não há dúvida, reproduzem ainda os comportamentos vistos na própria família. A escola, por outro lado, tem falhado no processo de conscientização. A misoginia, a homofobia, a transfobia e o racismo têm estado no palco dos discursos e relações dessas crianças.
Este ano eu completo 40 anos. Há 30 anos todas essas questões já existiam. Tive um colega de escola, por exemplo, que foi morto com menos de 15 anos pela polícia porque estava numa rodinha fumando maconha. Ele era o único negro entre meninos brancos de classe média. Piadas misóginas, transfóbicas e homofóbicas também eram comuns.
Eu sabia, por exemplo, o nome de todas as irmãs e mães dos meus colegas porque os meninos diziam uns aos outros que iriam “comer” e “pegar” as mulheres da família uns dos outros, como forma de bullying. Havia musiquinhas desrespeitosas com frases do tipo.
Como menina, eu sentia alguns medos. Mas não havia uma violência tão direcionada como há hoje, de montagens pornográficas, a violações e a estupros coletivos. Não sei se estou certa, mas a minha sensação é: a violência contra a mulher escalou muito mais. O desrespeito aos nossos corpos, o processo de desumanização, só ampliou.
Veja esse dado: segundo o estudo TIC Kids Online Brasil, quase metade dos adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos acessa a internet sem supervisão dos pais. Conseguimos ver na prática os efeitos disso. Mas não estamos dando conta de resolver. Na minha opinião, nenhuma criança deveria ter acesso às redes sem supervisão e um smartphone com livre acesso na mão. Há muitos perigos. Viram a série Adolescência?
Outro dado alarmante, trazido pela pesquisa da UCL e Universidade de Kent, do Reino Unido, demonstra que em apenas cinco dias usando o TikTok, o volume de conteúdo misógino entregue pelo algoritmo na página “Para Você” de contas simulando perfis de adolescentes quadruplicou. Não foram semanas. Não foram meses. Em apenas 5 dias.
Uma pesquisa sueca, conduzida por Emma Renström e Hanna Bäck, acompanhou quase 3.500 homens e demonstrou que jovens expostos a conteúdos da machosfera tornaram-se mais misóginos e mais desconfiados das mulheres. O efeito foi ainda mais intenso entre aqueles que haviam sofrido algum tipo de rejeição amorosa. Tudo isso demonstra o poder das narrativas em ampliar a misoginia. Somos e agimos boa parte em função das narrativas que consumimos.
Não acho que a culpa seja exclusivamente das redes, dos pais, da escola. A culpa é de todos. Da sociedade, que não está dando conta de olhar para o problema e resolvê-lo. Crianças não devem estar na internet, os pais deveriam ter mais tempo com os filhos, a escola deve promover falar da misoginia, devem existir políticas públicas que coíbam a misoginia em todos os espaços e promovam a reversão do ódio. Se a violência contra a mulher é ensinada, podemos, igualmente, ensinar respeito e amor.


















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