Ator Juliano Cazarré
Ator Juliano Cazarré

Um curso meu ensinando homem a ser homem venderia?

Olha, vou dizer: não sei se é porque sou leonina e tenho autoestima de milhões, mas acredito que sou uma das melhores pessoas para ensinar homens a serem homens. A lidar com todos os transtornos que a masculinidade vigente vem causando a eles. Estudo e escrevo sobre o tema há muito tempo.

Concordo com Juliano Cazarré que nosso lastro é a família. Quando entendemos de psicanálise, sabemos que importamos muito do que aprendemos com nossos pais e mães. Muitas vezes, reproduzimos papéis de gênero, comportamentos e aprendemos como ser tratadas a partir do que vimos na nossa infância. Portanto, o lugar da família é fundamental para as transformações necessárias.

Quando falamos de violência, manipulação, abusos, rejeição, abandono e negligência, quase sempre vivenciamos isso na infância. Mulheres que são vítimas de agressão quase sempre repetem o ciclo familiar ancestral. Homens abusadores e violentos, igualmente.

Mas, diante disso, é preciso pontuar algo: a violência masculina é comum. Isso não é culpa apenas das mulheres que não curaram seus traumas, como tentam vender. Da mesma forma, homens não estão isentos de responsabilidade porque reproduzem comportamentos de seus pais e avós. Isso tudo também é culpa das narrativas que colocam o amor e a dedicação das mulheres acima de tudo, que reforçam nosso lugar de sujeição, que colocam o poder e a habilidade de consumir mulheres como métrica de valor.

Nos últimos tempos, esses padrões têm sido amplificados com o crescimento dos discursos masculinistas e de defesa de uma suposta energia feminina, como a trend das esposas-troféu nas redes. Agora, pensa comigo: se parte dos papéis de gênero é responsável por fortalecer a inabilidade dos homens e colocar as mulheres no lugar de vítimas de inúmeros tipos de violência, em que esses discursos masculinistas e de resgate da energia feminina ajudam? 

Pelo que ouvi em um vídeo recente publicado pelo ator, o curso para homens que ele está organizando se fundamenta na religião. O que, acredito, pouco pode ajudar, já que boa parte das religiões também reforça esses lugares comuns, os papéis de gênero que produzem uma série de violências.

Um dos eixos centrais a ser trabalhado na reversão da violência e da perversidade da masculinidade, penso, principalmente depois que fui mãe, é a paternidade. Como a paternidade envolve um lugar de cuidado, papel relegado prioritariamente às mulheres, uma grande revolução social vai acontecer quando os homens aprenderem a ser pais, não tenho dúvidas. Na minha casa, isso é motivo de muitos conflitos e também de algumas transformações.

Outro ponto central é trabalhar o desenvolvimento do eixo relacionamento-sexualidade. Não conheço um homem — um sequer — que viva essas questões de forma saudável. A lógica de consumo das mulheres e a colocação da sexualidade como uma métrica de valor e poder produzem profundos transtornos para todos os homens. Não saber se relacionar, objetificar mulheres e por aí vai…

Sinto mesmo vontade de trabalhar com os homens. Várias das questões que nós, mulheres, não suportamos mais e que precisam acabar para ontem, só serão resolvidas quando criarmos outros mitos e crenças para a masculinidade. Até tenho uma peça teatral escrita e premiada sobre o tema. Ela se chama Eu sou o homem, mas nunca dei conta de produzir. Jogando aí para o universo. Sair do lugar de domínio e poder para entender sobre responsabilidade, afeto e cuidado é o que os homens precisam aprender.

1 Comente

  • Leandro
    • Leandro
    • 27 de abril de 2026 21:18

    Sou homem, pai e leio seus textos com interesse

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