Vivemos numa era que condena a educação sexual. Que não sabe os caminhos para fazê-la. E isso é profundamente perigoso, porque entrega os nossos jovens e a nossa sexualidade aos diversos perigos, transtornos e horrores. Produz vícios e distorções do que é o prazer. Nos faz confundir prazer com subjugação e violência.
Lembro de que, por volta dos 11 ou 12 anos, tive uma aula na escola sobre educação sexual. Nos mostraram um vídeo que explicava todo o processo de uma gestação, com imagens de caráter educativo e linguagem apropriada para crianças. O vídeo também explicava o que era o ato sexual, o desejo, como ele se iniciava e os cuidados que deveríamos ter.
A aula foi conduzida pelo serviço de psicologia da escola. Eu estudava numa escola de freiras, o Imaculado Coração de Maria, em Olinda. Não me recordo se, naquela altura, eu já entendia o que era sexo. Mas aquele dia me marcou. Lembro de conversar com as amigas depois. Lembro de uma delas confessar que estava com vontade de fazer sexo e, em seguida, ir conversar no serviço de orientação psicológica.
Minha sexualidade também foi formada pelas revistas que eu lia, especialmente a Capricho. Embora existisse ali uma linguagem bastante machista, também havia uma narrativa de autonomia: a crença de que a primeira transa só deveria acontecer quando a menina se sentisse pronta, quando fosse o momento certo. E foi assim para mim.
Hoje, diante do avanço do conservadorismo e da extrema direita com seus discursos trocados, não sei se conteúdos de educação sexual ainda existem nas escolas. A pornografia, porém, está na palma da mão de qualquer jovem ou adolescente, sem que os pais possam ter tanto controle. Sou contra que crianças tenham celulares, por exemplo. Acho muito perigoso.
Por curiosidade, há uns 28 anos eu acessava esses conteúdos na adolescência, no computador que ficava em um espaço comum da casa, quando não havia ninguém por perto. Hoje, os celulares e computadores estão em espaços privados. E não é só a pornografia que afeta os jovens.
Se a pornografia expressa, de forma concisa, todo o ódio às mulheres, com imagens de domínio, subjugação e violência, hoje se somam a isso os discursos masculinistas, incels e redpills que estão em todos os espaços virtuais. Como trouxe esta semana, a partir da fala da juíza Vanessa Cavaliere, as consequências disso são atos de violência contra meninas adolescentes, como o estupro coletivo que aconteceu em Copacabana.
Toda essa problemática, embora em graus diferentes, também formatou a nossa sexualidade. A maior parte de nós não teve acesso a conhecimento, a educação sexual, a uma construção do desejo que não degradasse as mulheres. Se, por um lado, há o incentivo da violência contra as mulheres, por outro a sexualidade se constrói para nós a partir do medo - da violência, da gravidez, de ser lida como uma mulher de menor valor - e, consequentemente, da culpa. Essas camadas estão em nós.
Como pais e mães, por não termos tido acesso a uma construção saudável da sexualidade, também não temos a capacidade de educar os nossos filhos. De colocar o sexo e o desejo como algo natural, que pode ser encarado como uma troca de afeto e amor, e vivido com responsabilidade. Penso que há uma cura muito profunda a ser feita sobre essa dimensão. Por isso, escolhi trabalhar com isso. Um campo que poderia ser pura potência, tem se tornado um lugar de distúrbios, violência e horror.

















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1 Comente
Muito obrigada, procure proteger, a misoginia, está no porteiro do condomínio.
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